Negros no Poder: Juízes Debatem o Racismo e Mostram que o Lugar de Decisão Também é Nosso
Muitas vezes, quando entramos em um tribunal ou vemos notícias sobre justiça na TV, é difícil encontrar rostos que se pareçam com os nossos. Mas isso está mudando. E precisa mudar mais rápido.
Nesta semana, Brasília foi palco de um encontro histórico. Juízas e juízes negros de todo o Brasil se reuniram na casa de uma das cortes mais altas do país para dizer: "Nós existimos, estamos aqui e precisamos mudar a forma como a justiça trata o povo negro".
Abaixo, reproduzimos a matéria do portal G1 que noticiou este evento, para que você entenda a importância do que está acontecendo.
A Notícia na Íntegra
Fonte: G1 / TV Globo – Por Filipe Matoso Data: 09/12/2025 Link Original: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2025/12/09/juizas-e-juizes-negros-debatem-racismo-no-judiciario-presidente-do-stj-pede-acoes-concretas.ghtml
Juízas e juízes negros debatem racismo no Judiciário; presidente do STJ pede ações 'concretas'
O Poder da Voz Estudantil: Escola de Aplicação da USP Institui Protocolo Antirracismo Histórico
A educação antirracista não se faz apenas com discurso, mas com mecanismos institucionais sólidos de proteção e responsabilização. Em uma vitória significativa para o movimento estudantil negro, a Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP (FE-USP) lançou seu primeiro Protocolo Antirracismo, um documento que transforma o combate à discriminação em política oficial da instituição.
Esta conquista, noticiada pelo Jornal da USP em 08 de dezembro de 2025, nasce não da benevolência administrativa, mas da pressão legítima e organizada dos estudantes.
Da Indignação à Ação Institucional
O documento é fruto direto da mobilização do coletivo antirracista Blackout, formado por estudantes negros da escola. Em 2024, após o descontentamento com o encaminhamento frágil de uma denúncia de racismo, os estudantes realizaram protestos contundentes, expondo frases e situações vividas no ambiente escolar.
Como relata a reportagem de Silvana Salles para o Jornal da USP:
"Foi o descontentamento dos estudantes com o encaminhamento de uma denúncia de racismo que levou a Escola de Aplicação [...] a elaborar seu primeiro Protocolo Antirracismo."
Antes, a escola operava com fluxogramas focados apenas em medidas educativas e conversas informais. O novo protocolo muda esse cenário drasticamente.
O Que Muda na Prática?
Educação Antirracista em 2025: Entre a Lei e a Prática, o Caminho é a Mobilização
O ano de 2025 marca um momento decisivo para a educação no Brasil. Estamos debatendo o novo Plano Nacional de Educação (PNE) no Congresso e revisitando mais de duas décadas da Lei 10.639/03. No entanto, a pergunta que persiste é: por que, após tanto tempo, a implementação do ensino de história e cultura afro-brasileira ainda enfrenta tantas barreiras?
Um recente miniguia publicado pela Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), de autoria de Lorrany Martins, lança luz sobre este cenário, trazendo dados cruciais sobre a desigualdade racial nas escolas e a situação da educação quilombola.
Abaixo, destacamos pontos fundamentais deste levantamento e ampliamos a discussão com o olhar da Educafro.
O Cenário Atual: Diagnóstico e Desafios
Dezembro de 2025: O Mês em que a Conta Chegou para o Racismo e a Fraude
Se novembro é o mês da nossa Consciência, dezembro de 2025 está se consolidando como o mês da Cobrança e da Justiça. Nas últimas semanas, o noticiário nacional foi tomado por decisões e ações que sinalizam uma virada de chave na luta antirracista no Brasil. Não estamos mais apenas pedindo respeito; estamos exigindo reparação, ocupando espaços de poder e fazendo doer no bolso de quem tenta nos enganar ou nos eliminar.
Para a comunidade negra, três fatos recentes desenham o mapa da batalha para 2026. Analisamos aqui o que eles significam e para onde precisamos avançar.
1. O Fim da Impunidade nas Cotas: A Lição de R$ 720 Mil
A notícia mais impactante deste início de dezembro veio da Justiça Federal do Rio de Janeiro. A condenação de uma médica a pagar R$ 720 mil por fraudar o sistema de cotas da Unirio é pedagógica e histórica.
Por que isso muda nossa vida? Até ontem, fraudadores de cotas contavam com a morosidade da justiça e com a ideia de que o "fato consumado" (ter se formado) garantiria a impunidade. Esta decisão explode essa lógica. Ela diz ao mercado: fraudar sua raça para roubar a vaga de um jovem negro pobre custará sua fortuna e sua reputação. Para avançar, precisamos usar este precedente para auditar todos os concursos e vestibulares dos últimos dez anos. A fiscalização deve ser implacável.
2. O Racismo Corporativo no Banco dos Réus: O Caso Itaú
O Peso do Racismo na Saúde: Estudo revela como a desigualdade atinge a população negra
A saúde não é apenas o resultado de fatores biológicos; ela é profundamente moldada pelas condições sociais, econômicas e, no Brasil, raciais. Um novo estudo realizado em Uberlândia (MG) e divulgado pelo Nexo Jornal joga luz sobre uma realidade cruel: a desigualdade racial é um vetor de adoecimento.
Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) analisaram uma década de dados (2011-2021) sobre doenças infecciosas e constataram que enfermidades historicamente ligadas à vulnerabilidade social afetam desproporcionalmente a população negra.
Tuberculose e Sífilis: O Retrato da Desigualdade
Os dados são alarmantes. No caso da tuberculose — uma doença intimamente ligada às condições de moradia e saneamento — e da sífilis gestacional — que reflete a qualidade do acesso ao pré-natal —, a população negra é a principal vítima.
Enquanto a população branca representou cerca de 34% dos casos de tuberculose, a população negra somou mais de 58%. Na sífilis em gestantes, o abismo é similar: 60,32% dos casos ocorreram em mulheres negras, contra 33,13% em brancas.
Esses números não são coincidência. Eles são o reflexo do racismo estrutural que empurra a população negra para áreas com menos infraestrutura e dificulta o acesso a serviços de saúde de qualidade, mesmo dentro do SUS.
Por que precisamos de dados com recorte racial?
A Sombra de Willie Lynch: Por que Precisamos Falar Sobre a Estratégia de Dividir para Oprimir
Há feridas na história que não cicatrizam com o silêncio; elas exigem ser expostas, compreendidas e tratadas. Uma das mais profundas e persistentes cicatrizes na psique da população negra nas Américas é o legado simbólico da chamada "Carta de Willie Lynch".
Embora historiadores debatam a autenticidade documental da carta, o método descrito nela é uma realidade histórica inegável. O sistema escravista não se sustentou apenas com correntes de ferro; ele se manteve de pé através de uma engenharia social perversa desenhada para quebrar o espírito coletivo do nosso povo.
Quem foi Willie Lynch e o que ele Representa?
A narrativa histórica nos conta que Willie Lynch foi um proprietário de escravos no Caribe, conhecido por manter um controle absoluto e cruel sobre os negros escravizados. Acredita-se, inclusive, que o termo "linchar" (lynching) derive de seu sobrenome, eternizando sua ligação com a violência racial.Read more
Guerreiro Ramos: O Intelectual que Ensinou o Brasil a Olhar para Si Mesmo e para a Branquitude
Muitas vezes, a história oficial tenta nos convencer de que o pensamento crítico sobre raça no Brasil é uma invenção recente. Nada poderia ser mais falso. Décadas antes de termos as palavras "branquitude" e "racismo estrutural" na ponta da língua, um homem negro, baiano de Santo Amaro da Purificação, já dissecava a alma do país com uma precisão cirúrgica. Seu nome era Alberto Guerreiro Ramos.
19 Anos Depois, a Cobrança Chega: Educafro e OAB-RJ Processam Itaú em R$ 414 Milhões por Morte de Cliente Negro
A memória do povo negro não prescreve. Dezenove anos após a execução brutal de Jonas Eduardo Santos de Souza dentro de uma agência bancária no Rio de Janeiro, a Educafro Brasil e a OAB-RJ deram um passo histórico para garantir que a impunidade não seja a palavra final desta tragédia.
Nesta semana, protocolamos uma Ação Civil Pública (ACP) exigindo que o banco Itaú pague uma indenização de R$ 414 milhões por danos morais coletivos decorrentes de racismo estrutural e institucional.
O STF, a Política e a Cor do Poder: Por Que Insistimos no Jantar com Lula
A indicação de Jorge Messias para a vaga do Ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF), anunciada pelo Presidente Lula justamente no dia 20 de novembro — Dia da Consciência Negra —, gerou reações imediatas e profundas em todo o movimento negro brasileiro.
O mal-estar não passou despercebido pela grande mídia. Em matéria publicada na coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, a jornalista Pâmela Dias destacou a insatisfação e a pressão das entidades por um diálogo real antes da sabatina.
Uma Fresta de Luz no Templo da Justiça: Educafro Recebe o Novo Desembargador Negro do TJ-SP
O "Almoço com Cidadania" da Educafro Brasil é, há anos, um espaço de aquilombamento, onde alimentamos o corpo, a alma e a estratégia da nossa luta. Esta semana, tivemos a honra de partilhar esta mesa com uma figura que representa a materialização de décadas de batalha: o recém-nomeado Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Dr. Derly Barreto e Silva Filho.





imagem - arte desenvolvida com AI generica exclusivamente para ilustrar o artigo sem qualquer finalidade de reprodução 24/11/2025