Não estamos aqui para lamentar em silêncio. O luto, para o povo negro, sempre foi verbo de ação. Hoje, a Educafro Brasil convoca toda a sociedade, especialmente a juventude negra e as organizações de direitos humanos, para encarar de frente uma realidade que não é acidente, mas projeto: o genocídio institucionalizado praticado pelas forças de segurança do Estado.
Os dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e relatórios de institutos independentes desenham um cenário de guerra onde o inimigo declarado é o corpo negro. Sob a justificativa do “combate ao crime”, o Estado brasileiro arrogou para si um poder que não lhe pertence: o de julgar, condenar e executar a pena de morte nas vielas e periferias, sem tribunal, sem defesa e sem consequência.
O Mapa da Barbárie: São Paulo como Laboratório da Morte
O estado de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas e do secretário Guilherme Derrite, tornou-se o epicentro dessa escalada de violência. Os números são uma afronta à dignidade humana:
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Explosão da Letalidade: Entre 2023 e 2024, as mortes causadas pela Polícia Militar em serviço aumentaram 83,8%. Em apenas um ano, a PM paulista passou de 353 para 649 execuções oficiais.
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Crianças e Adolescentes na Mira: O dado mais revoltante é o aumento de 120% nas mortes de crianças e adolescentes (10 a 19 anos) pelas mãos da polícia entre 2022 e 2024. Uma em cada três mortes violentas nessa faixa etária é cometida por quem deveria proteger. E a seletividade é brutal: crianças negras têm 3,7 vezes mais chances de serem mortas pela polícia do que as brancas.
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O Desmonte do Controle: Esse aumento não é coincidência. Ele ocorre simultaneamente ao desmonte das câmeras corporais, à redução dos conselhos de disciplina e a discursos oficiais que validam a violência como método de gestão.
O Padrão Nacional: A Cor do Alvo
O problema não é exclusividade paulista. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revela que 82% das vítimas de intervenção policial no Brasil são negras. Isso significa que, de cada 10 pessoas mortas pela polícia, 8 são pretas ou pardas.
A polícia também morre, e morre negra. 65,4% dos policiais assassinados em 2024 eram negros. O sistema mói a carne negra dos dois lados do cano da arma, perpetuando um ciclo de violência que só serve para manter o controle social através do medo.
A Impunidade como Política de Estado
O estudo “Mapas da (In)Justiça”, da FGV Direito SP, escancara como o sistema de justiça lava as mãos diante desse sangue. A análise de 859 inquéritos de mortes policiais em SP entre 2018 e 2024 revelou que nenhum policial foi denunciado pelo Ministério Público. Em 85% dos casos, sequer foi feito exame de pólvora nas mãos da vítima para provar o suposto confronto.
A narrativa de “confronto” é aceita automaticamente, transformando a execução sumária em “legítima defesa” administrativa, sem investigação séria. Isso não é falha; é blindagem.
O Levante Necessário: Organizar para Sobreviver
Diante desse quadro, a tristeza não nos serve. Precisamos de organização política e jurídica. A Educafro Brasil exige:
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Fim da “Licença para Matar”: O afastamento imediato de policiais envolvidos em mortes e a investigação independente, fora das corregedorias corporativistas.
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Câmeras Já e Sem Cortes: A retomada da gravação ininterrupta nas fardas como política de estado inegociável.
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Responsabilização do MP: O Ministério Público deve cumprir seu papel constitucional de controle externo da polícia, sob pena de prevaricação.
Não aceitaremos que a vida de um jovem negro valha menos que uma estatística. Cada morte é um universo apagado, uma família destroçada e um futuro roubado do Brasil.
A polícia não pode ser juiz e carrasco. E nós não seremos mais as vítimas silenciosas.
Referências e Créditos para Aprofundamento:
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Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
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Estudo “As câmeras corporais na Polícia Militar do Estado de São Paulo” (UNICEF/FBSP).
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Relatório “Mapas da (In)Justiça” (FGV Direito SP).
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Ponte Jornalismo: “Polícias em SP protagonizam mês de maio mais letal em cinco anos”.
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Brasil de Fato: “Sob Tarcísio e Derrite, PM de São Paulo mata quase o dobro em 2024”.
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