Ilustraçõ da figura do orixá Omolu — Nathi de Souza/Arquivo/Alma Preta
Atotô, Omolu! O Senhor da Terra, da Cura e da Resistência Cultural
Neste mês de agosto, e com especial reverência hoje, dia 16, os terreiros de Candomblé e Umbanda se voltam para um dos Orixás mais respeitados e complexos de seu panteão: Omolu. Conhecido como o “Senhor da Terra”, sua força rege os ciclos da saúde e da doença, da vida e da morte.
Em um tempo em que a saúde coletiva é pauta central, olhar para a sabedoria ancestral das religiões de matriz africana é um ato de reconhecimento e resistência. Como nos ensina o babalorixá e doutor em ciências sociais Rodney William, em entrevista ao Alma Preta Jornalismo, celebrar Omolu é evocar “o poder desse orixá para varrer da terra as dores, a peste e a maldade”.
Quem é Omolu? A Riqueza dos Itãs
Os itãs – narrativas sagradas dos Orixás – nos revelam a profundidade de Omolu. Filho de Nanã, ele nasceu com o corpo coberto por chagas e, por isso, foi deixado aos cuidados de Iemanjá. Rodney William conta que “Omolu cresceu cheio de complexos e para esconder suas marcas vestiu-se com um capuz de palha da costa”.
Sua história é uma poderosa lição sobre exclusão, aceitação e a descoberta da beleza interior. Em um itã famoso, durante uma festa onde foi repudiado por todos, Omolu encontra a compaixão de Iansã. Ao dançar com ele, os ventos da Orixá guerreira levantam suas palhas, revelando não as feridas, mas um brilho intenso. “Omolu era o sol e cobria-se para não ofuscar com sua luz e calor intensos”, compartilha o Babalorixá. Aquele que era visto como doente e repulsivo era, na verdade, a própria luz.
Sua dualidade, como senhor da doença e da cura, é explicada em sua jornada até o povo Mahi. Temido por espalhar epidemias, ele foi recebido com oferendas de pipoca (o doburu), seu alimento sagrado. “Ficou tão contente que curou a epidemia de varíola e passou a ser o rei daquele povo”, relata Rodney. Ele nos ensina que o poder que causa a enfermidade é o mesmo que detém o segredo da cura.
Olubajé: O Banquete da Saúde e da Humildade
A principal cerimônia para Omolu em agosto é o Olubajé, o “banquete do rei”. É um ritual que atrai aos terreiros pessoas em busca de cura e fortalecimento. Rodney William explica que, em sua comunidade, o Ilê Oba Ketu Axé Omi NLá, as rezas se iniciam semanas antes do grande dia.
No Olubajé, o alimento ritualístico é partilhado com todos os presentes como forma de fortalecer o corpo e o espírito. “Os assentamentos do orixá vêm para o centro do barracão e todos são convidados a trazer os nomes das pessoas adoentadas e seus pedidos de cura”, conta o babalorixá. É um momento de profunda comunhão e fé coletiva, que nos lembra, como diz Rodney, que “não adianta ter todo dinheiro do mundo se não temos saúde”.
A Importância de Estudar e Difundir Nossa Cultura
Para a Educafro, celebrar Omolu é uma questão de educação. Os itãs não são contos folclóricos; são complexas narrativas filosóficas sobre identidade, superação, respeito e comunidade. A sabedoria de Omolu sobre a terra e suas curas é ciência ancestral, um conhecimento sistematicamente marginalizado pelo racismo epistêmico, que valida apenas o saber europeu.
Difundir essa cultura é um ato de reparação histórica e de combate ao racismo religioso. É garantir que nossas crianças e jovens tenham o direito de conhecer a riqueza da espiritualidade que é pilar na formação do Brasil. Lutar por uma educação antirracista, como prevê a Lei 10.639/03, é lutar para que a história de Omolu seja ensinada com a mesma dignidade que a mitologia greco-romana.
Estudar essas tradições é afirmar nossa identidade, valorizar nossa história e exigir respeito.
Para Saber Mais: Leituras e Caminhos
Aprofundar-se no universo dos Orixás é uma jornada fascinante. Deixamos aqui algumas sugestões de obras para estudo e entretenimento:
Para Estudo e Aprofundamento:
- “Mitologia dos Orixás” – Reginaldo Prandi: Uma obra de referência, que reúne centenas de itãs de forma acessível e academicamente embasada.
- “Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo” – Pierre Fatumbi Verger: Um clássico indispensável, fruto da imersão profunda do fotógrafo e etnógrafo franco-brasileiro na cultura iorubá.
- “Apropriação Cultural” – Rodney William: O autor da entrevista citada neste artigo discute temas essenciais sobre a cultura negra no Brasil, incluindo apropriação e identidade.
Leitura Complementar e Entretenimento:
- “Tenda dos Milagres” – Jorge Amado: Um romance que mergulha na cultura e na religiosidade afro-baiana de forma vibrante e cativante, sendo uma ótima porta de entrada.
- “Um Defeito de Cor” – Ana Maria Gonçalves: Embora uma obra de ficção histórica, o livro retrata com maestria as práticas culturais e religiosas dos africanos e seus descendentes no Brasil.
- Filme “Òrun Àiyé – A Criação do Mundo” (2015) – Uma animação que narra mitos iorubás, dirigida por Jamile Coelho e Cintia Maria.
Que a força do Senhor da Terra nos cubra com seu manto de palha, nos protegendo de todas as pestes – tanto as do corpo quanto as da alma, como o racismo.
Atotô, Omolu!
Créditos:
- Este artigo foi aprimorado com base em reprodução parcial da matéria do Alma Preta Jornalismo, com entrevista de Rodney William.
- Texto Original: Thayná Santana (@thaynasnf) | Alma Preta Jornalismo
- 📸 Ilustração: Nathi de Souza/Arquivo/Alma Preta
